Acidente e primeiros socorros: 112, SBV, PLS e incêndio no carro
Atualizado em 25 de outubro de 2026
Como motorista profissional passas muitas horas na estrada, por isso é mais provável que um dia sejas o primeiro a chegar a um acidente, ou que um passageiro se sinta mal no teu carro. Não te pedem que sejas médico: pedem que saibas proteger o local, ligar bem para o 112 e fazer os gestos certos até chegar o socorro. Seguimos as orientações atuais do INEM e, onde o manual antigo do IMT diz outra coisa, avisamos.
Prevenir, alertar, socorrer
É a ordem de tudo o que fazes num acidente:
- Prevenir (proteger): tornar o local seguro para ti, para os teus passageiros e para as vítimas, e evitar um segundo acidente;
- Alertar: ligar 112 e dar a informação certa;
- Socorrer: ajudar as vítimas até chegar o socorro profissional.
O manual do IMT chama ao primeiro passo «prevenir»; muitas perguntas dizem «proteger». É o mesmo passo, e vem sempre primeiro: um socorrista ferido não ajuda ninguém.
Sinalizar o local
- liga os quatro piscas e para em segurança, fora da faixa se puderes;
- veste o colete retrorrefletor antes de saíres para a estrada;
- coloca o triângulo a pelo menos 30 m atrás do carro ou da carga, de forma a ser visto a pelo menos 100 m (art. 88.º, n.º 3);
- tira os passageiros da faixa de rodagem para um sítio seguro (art. 87.º, n.º 2);
- desliga a ignição dos carros acidentados para reduzir o risco de incêndio;
- não mexas nos feridos, a não ser que haja perigo imediato (fogo, explosão), e não lhes dês de comer, de beber nem medicamentos;
- se houver mortos ou feridos, ficas no local até chegar a autoridade (art. 89.º, n.º 2).
Ligar 112: o que dizer
Em Portugal, o 112 é atendido nos Centros Operacionais 112; numa emergência médica a chamada passa para o CODU do INEM. Para a chamada correr bem, responde a quatro perguntas:
- Onde? A localização exata, com pontos de referência (um café, uma igreja, o quilómetro da estrada);
- O quê? O que aconteceu e quando (por exemplo, choque frontal entre dois ligeiros);
- Quem? Quantas vítimas, idade e sexo, se há crianças ou pessoas presas nos carros;
- Como? O estado das vítimas e os perigos (fumo, combustível derramado).
Diz o teu nome e um número contactável, responde a tudo o que te perguntarem, segue os conselhos do técnico e só desligas quando te disserem. Se a chamada demorar a ser atendida, espera: cada nova tentativa volta ao fim da fila. Se puderes, liga junto da vítima com o telemóvel em alta voz. A aplicação da plataforma tem também um botão de emergência que liga às autoridades e partilha a localização.
Suporte básico de vida no adulto
O INEM resume tudo em três passos:
- Segurança e reatividade: confirma que é seguro aproximares-te, abana os ombros com cuidado e pergunta em voz alta «Está a ouvir-me?».
- Ligar 112 e ver se respira: se não reage, liga 112 em alta voz. Põe a vítima de costas, inclina-lhe a cabeça para trás com dois dedos no queixo e faz o VOS durante 10 segundos: ver o peito mexer, ouvir e sentir o ar a sair. Uma respiração lenta, rara ou ruidosa (respiração agónica) não é normal: trata-a como paragem.
- Iniciar SBV: mãos entrelaçadas no centro do peito, braços esticados, e 30 compressões com 5 a 6 cm de profundidade, a 100 a 120 por minuto, deixando o peito subir todo entre cada uma. Depois, 2 insuflações de cerca de 1 segundo cada, e volta logo às compressões. Se não tiveres proteção ou não te sentires capaz de insuflar, faz só compressões, sem parar.
Se houver um desfibrilhador automático externo (DAE) por perto, pede que o tragam. Se estiverem duas pessoas, uma liga 112 enquanto a outra avalia a vítima, e trocam de quem comprime a cada 2 minutos. Continuas até chegar ajuda diferenciada, até a vítima dar sinais de vida ou até ficares exausto.
Cai no exame
O ritmo 30:2 é igual no manual do IMT de 2010 e no INEM atual. O resto mudou: o manual antigo falava em 4 a 5 cm, em procurar o pulso e em começar por 2 insuflações. Hoje vês se respira (não procuras o pulso), começas pelas compressões e comprimes 5 a 6 cm.
Posição lateral de segurança
Se a vítima está inconsciente mas respira normalmente, liga 112 e põe-na em posição lateral de segurança (PLS): deitada de lado, estável, com a cabeça inclinada para trás para a boca drenar e a língua não tapar a via aérea. Volta a ver se respira com regularidade. Atenção: se suspeitas de lesão na coluna (por exemplo, depois de um acidente) e a vítima respira, não a mexas até chegarem as equipas de emergência.
Engasgamento
- Obstrução ligeira: a pessoa fala, tosse e respira. A tosse é a melhor ajuda: deixa-a tossir e vigia.
- Obstrução grave: não consegue falar, a tosse é fraca ou não existe, leva as mãos ao pescoço. Inclina-a para a frente e dá até 5 pancadas entre as omoplatas com a base da mão. Se não resolver, faz até 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich), por trás, com o punho acima do umbigo, para dentro e para cima. Alterna as duas. Em grávidas e pessoas obesas, as compressões são no peito, não na barriga.
- Se ficar inconsciente: deita-a no chão, liga 112 e começa o SBV (30 compressões, 2 insuflações). Só tiras o objeto com os dedos se o vires claramente na boca.
Depois de qualquer destas manobras, a pessoa deve ser vista por um médico.
Hemorragias
Numa hemorragia externa, a primeira técnica é a compressão manual direta: compressas ou um pano limpo sobre a ferida, e carregas com a mão. Se ensopar, não o tires: põe outro por cima e continua a comprimir. Usa luvas se tiveres. Não improvises garrotes.
Sangue no nariz (epistáxis): pessoa sentada, com a cabeça direita, e aperta as asas do nariz com dois dedos, em pinça, durante cerca de 10 minutos. Não lhe peças para inclinar a cabeça para trás. Se o sangramento vier de uma pancada forte na cabeça, não comprimas nem tampones o nariz: liga 112.
Queimaduras
- arrefece a zona com água tépida corrente (ou soro), sem gelo;
- tira relógio, anéis e roupa que não esteja colada; a roupa agarrada à pele não se arranca;
- não rebentes as bolhas e não ponhas manteiga, pasta de dentes, pomadas nem óleos;
- queimaduras na cara, no pescoço ou com fumo inalado são sempre graves: 112 de imediato;
- numa queimadura elétrica, não toques na vítima antes de a corrente estar desligada.
Incêndio no carro
Para haver fogo são precisas três coisas: combustível, comburente (o oxigénio do ar) e energia de ativação (o calor). Tira uma e o fogo apaga-se. Se o teu carro deitar fumo ou chamas:
- liga os quatro piscas, encosta, para e desliga o motor;
- tira primeiro os passageiros e afasta-os para um sítio seguro: as pessoas vêm antes da chamada e antes de combater o fogo;
- liga 112 e diz que há um carro a arder;
- só se o fogo for pequeno e sem risco de explosão tentas apagá-lo com o extintor; se for grande, afasta-te e espera pelos bombeiros, sem deixar outros carros pararem perto.
Com o extintor: em pé, tira o selo e a cavilha, faz uma descarga curta de teste, aproxima-te devagar com o vento pelas costas e aponta o jato à base das chamas, varrendo em semicírculo, sem interrupções e sem virar as costas ao fogo. Num fogo no motor, não abras o capô todo: o ar que entra aviva as chamas; abre só uma fresta e descarrega por ela. Para fogos em carros, o manual do IMT aconselha o extintor de pó, adequado a fogos das classes A, B e C; nunca uses água num fogo na parte elétrica.
Armadilha
«Apontar ao meio das chamas» ou «ao fumo» está errado: é sempre à base das chamas. E, num carro a arder com passageiros, a primeira coisa é pô-los em segurança, não ir buscar o extintor.
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